sábado, 20 de novembro de 2010

Lendas: Jimi Hendrix (1942-1970)



Algumas pessoas precisam de muito pouco para se tornarem geniais, lendárias, indispensáveis. Jimi Hendrix foi uma delas. Ele não é chamado de o maior guitarrista de todos os tempos à toa. Há um motivo bem claro para tal façanha: ele ousou. E muito. De uma maneira que muitos, na época e até mesmo nos dias de hoje, não teriam coragem de ousar. O menino de raízes indígenas, que conviveu muito cedo com tragédias pessoais (como o divórcio dos pais e a morte da mãe, quando ele era apenas um adolescente de 16 anos), aos cinco viu seu mundo mudar quando ganhou de presente sua primeria guitarra. Estavam abertas ali as portas do éden musical para Hendrix.

Influenciado de forma maciça por gigantes do blues como B. B. King, Muddy Waters, Howlin' Wolf, Albert King e Elmore James e continuando o legado de guitarristas de Rhythm and Blues e Soul como Curtis Mayfield e Steve Cropper (isso, é claro, sem deixar de lado sua paixão pelo jazz moderno), Hendrix revolucionou o gênero e mudou definitivamente a forma de se apresentar para o público portando uma guitarra. O jovem que queria fazer com seu instrumento "o que Little Richard fez com sua voz", fugia do convencional sempre que era viável. Seus amplificadores eram sempre distorcidos, crus, escolhidos a dedo por valorizar os agudos e os riffs que tanto admirava. Além disso, popularizou o pedal Wah-wah no rock n' roll, que lhe permitia dar um timbre exagerado em seus solos, levando a plateia ao delírio.

O canhoto de estilo único, que deu a tão indesejada microfonia um sentido artístico, conseguia transformar sua guitarra - a preferida era sempre uma Fender Stratocaster - em qualquer coisa que desejasse: de uma metralhadora furiosa ao grito desesperado de uma mulher. Esse era o diferencial de Jimi. Sucessos não faltaram ao longo da curta carreira, dentre eles destaco aqui entre os meus preferidos, Hey Joe, All Along the Watchtower, Voodoo Child, Foxy Lady e a apocalíptica (interpretação exclusivamente minha) Purple Haze.   

Apesar de suas apresentações antológicas no Festival de Woodstock (em 1969) e na Ilha de Wight, no ano seguinte, a grande apoteose de Hendrix foi mesmo no Festival Monterey Pop (em 1967), com a presença ilustre, na plateia, de celebridades como Mick Jagger, Pete Townsend e Eric Clapton, entre outras feras. O ponto máximo do show - quando o artista põe fogo a sua própria guitarra, numa espécie de simbolismo às vítimas de guerras passadas nos EUA - até hoje é considerado por críticos conceituados como um dos maiores marcos da história da música no mundo. Lembro que quando assisti ao espetáculo no canal a cabo Concert Channel fiquei simplesmente estático diante da tela, pois nunca tinha visto antes algo do tipo.

Apesar da morte prematura e em circunstâncias até hoje não muito bem explicadas (o que, logo de cara, faz com que os fãs se perguntem a que nível o guitarrista teria chegado se ainda estivesse vivo!), pensar em Hendrix certamente é assunto para muitos estudos acadêmicos, matérias especiais em revistas e teses de doutorado. "Como ele conseguia fazer aquilo?", eu até hoje me pergunto. Por que nas suas mãos aquele pequeno artefato parecia tão gigantesco e simples de ser manuseado? Perguntas como essas, infelizmente ficarão sem respostas. Ainda bem que, pelo menos, seu registro musical é eterno e ainda pode conquistar gerações de admiradores ao redor do mundo!

Momentos mágicos do gênio:

Purple Haze:
Voodoo Child:
 

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Quadrinhos: "O Chinês Americano", de Gene Luen Yang



Qual foi o jovem na face da terra que já não se perguntou a respeito de qual o seu papel na história da humanidade? É, meus caros amigos visitantes desse cínico blog! Parece uma tarefa quase impossível dissociar as palavras juventude e conflito quando estamos nessa fase, não é mesmo? Nessas horas sempre me lembro da genialidade de William Shakespeare ao criar Hamlet, o adulto juvenil, cheio de questionamentos, capaz de qualquer coisa para vingar a morte do pai. Na história a seguir, essas indefinições estão bastante presentes na vida do protagonista, senão para encucá-lo cada vez mais, para fazê-lo desistir a qualquer custo do caminho a ser traçado.

Vejamos: um rei macaco em busca de aceitação como realeza, um garoto asiático tímido lutando contra o preconceito de viver numa terra estrangeira e um primo chato que, ano após ano, vem infernizar a vida de um garoto americano cheio de conflitos existenciais. Três histórias que, na verdade, são a mesma e única história. Em O Chinês Americano, graphic Novel de Gene Luen Yang, é apresentada aos leitores uma narrativa que teria tudo para se tornar uma saga sobre redenção ou mudança de atitude. No entanto, o que se percebe é que o verdadeiro problema em xeque aqui é a questão do respeito à sua própria identidade, independente do lugar onde se viva.

Seja através de relacionamentos amorosos frustrados, seja pelo descrédito dos outros que o vêem como uma ameaça só por ser de uma etnia diferente, seja pelas verdadeiras amizades que ele consegue estragar ao longo do caminho, Jim Wang - o nosso personagem envergonhado e cheio de dilemas morais e recalques - vai se arrastando (é bem esse o termo!) por uma vida sem viço, procurando por respostas nos lugares mais difíceis e acreditando verdadeiramente que a única maneira de viver plenamente é sendo aceito pelos demais (ou seja, traindo a sua própria essência como cidadão asiático).

Contado de uma maneira simples e sem as reviravoltas fabulosas com que costumeiramente os quadrinhos mais vendidos têm se apegado para conquistar uma multidão de fãs, o quadrinista cria um mundo mágico, aproveitando-se de uma antiga lenda chinesa, recontada aos dias de hoje,  e mostrando que muitas vezes a felicidade que tanto procuramos fora de nossa rotina, na maior parte do tempo está dentro de nós.

Uma publicação singela que se tornou a primeira história em quadrinhos a ser indicada ao National Book Award, um dos maiores prêmios literários do mundo, e atingindo a categoria sublime de obras gráficas essenciais como Maus, de Art Spiegelman e Avenida Dropsie, de Will Eisner. Em poucas palavras: um "colírio" para os olhos de qualquer fã da nona arte.

 

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Cinema Cult: "Rede de Intrigas", de Sidney Lumet



Desde que a televisão foi criada com o propósito de se tornar uma caixa mágica, sedutora, capaz de oferecer sonhos para seus espectadores, a sociedade passou por um processo de decréscimo intelectual gigantesco. Nunca se preferiu tanto a alienação ao conhecimento como nos atuais tempos caóticos em que vivemos. Contudo, sempre fiquei me perguntando: "E antigamente? Como se dava essa influência? O que os antigos produtores das redes de TV e corporações de mídia faziam para atrair seu público e mantê-lo devidamente adestrado em frente a seus aparelhos, desejando cada dia mais e mais espetáculo, sonhando com mais intensidade do que nunca uma vida de glamour e status como os dos personagens ficcionais?

Rede de Intrigas, de Sidney Lumet, responde a grande parte dessas perguntas (e olha que se trata de uma produção realizada num tempo em que a TV não se escondia atrás de tecnologias de captação de imagem, mujito menos apregoava seu sucesso a selos como HD, 3D ou outros modelos de exibição!). Numa América devastada pela derrota no Vietnã, em que ideologia e valores simplesmente não significam mais nada para a população - um retrato mórbido do "The dream is over", que John Lennon tanto enfatizou em seu discurso pop/rock -, e com a programação televisiva passando a ser o único antídoto contra todo tipo de mal-estar vigente, um homem angustiado e às vésperas de ser demitido decide levantar-se contra os poderosos e o sistema opressor que vigora ceifando vidas como se fossem brinquedos descartáveis. E ele acredita piamente que essa é a única forma de fazer a população cair em si.

Seu nome é Howard Beale (uma magnífica interpretação de Peter Finch), jornalista de rede de mídia UBS que, com suas alucinadas apresentações, informando que se suicidará, condenando as autoridades, expondo falcatruas e escândalos de uma maneira um tanto sarcástica e paranóica, atinge em cheio o interesse do público e, consequentemente, dos gestores da rede, que passam a vê-lo como uma mina de ouro para salvar a emissora da crise financeira. Porém, quando a língua ferina de Howard começa a disparar contra quem não deve (os chamados "intocáveis" do mundo televisivo), os dirigentes começam a perceber que o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro e caso não tomem as rédeas da situação o caos instaurado pode ser muito pior do que qualquer pico de audiência, acarretando no fim da própria corporação que patrocinou o espetáculo midiático.

O que se percebe, ao fim das mais de duas horas de filme, é que em pouco mais de três décadas o cenário do mundo corporativo não só continuou o mesmo, como a mentalidade da população piorou - e muito!. Um mercado que continua aproveitando-se de messias os mais diversos e profetas charlatanescos e abusando da má-fé com o público espectador para conquistar suas audiências arrebatadoras e vender produtos os mais diversos, sem se importar com qualquer tipo de ética. Rede de Intrigas é aquele tipo de película que deveria ser obrigatória no curriculum de qualquer instituição de ensino (do fundamental ao universitário), por expor as mazelas construídas a toque de caixa por um grupo seleto de criminosos que se escondem sob o título de "empresários", mas que na verdade, são um dos maiores responsáveis pelo nível de alienação que invade os domicílios diariamente.

Uma produção que deveria atingir a todos, mas que infelizmente, por falta de instrução adequada e de interesse de uma minora covarde, acaba por atingir apenas parcelas irrisórias da população. O que, no final das contas, é uma grande lástima!

Trecho do filme:

sábado, 6 de novembro de 2010

Literatura: "O Campeonato", de Flávio Carneiro



Como leitor inveterado de romances policiais estou sempre em busca de obras originais, que fujam do senso comum e do oráculo da mesmice que invadiu alguns segmentos do mercado editorial contemporâneo. Nada me atrai mais do que uma história no gênero que fuja dos padrões habituais com os quais estou acostumado a me deparar com frequência (tais como: serial killers, crimes passionais e a clássica acusação ao mordomo - leia-se sempre: a figura mais insuspeita de toda a trama - como assassino desvendado nas páginas finais). Em O Campeonato, de Flávio Carneiro, tive uma das experiências mais inusitadas e divertidas dos últimos anos. O autor exibe todo o seu talento em uma prosa satírica que segue a trilha de grandes autores como o brasileiro Rubem Fonseca e os estrangeiros Ben Elton e Elmore Leonard.

Um conto antigo, uma seita alucinada composta por executivos do mais alto escalão, um homem comum em busca de sustento e muita confusão: esses poucos elementos, quando reunidos, fazem do romance uma criação fenomenal. A trama é simples: André é o típico vagabundo carioca. Não para em um emprego sequer, vive se engalfinhando com sua namorada num relacionamento mais do que desgastado e seu único amigo é Gordo, um beberrão notório cujo único talento é tramar conspirações e contar suas travessuras numa mesa de bar. A única coisa na qual o protagonista dessa história é bom chama-se leitura. André lê vorazmente e, de preferência, histórias policiais. E pensando ver nisso algum tipo de dom decide fazer um curso de detetive por correspondência e tornar-se profissional do ramo. O que ele não imaginava é que o seu primeiro cliente, o destemido empresário Montenegro, na ânsia de descobrir o paradeiro do filho desaparecido há alguns meses, iria colocá-lo em rota de colisão com um mundo torpe e extremamente cruel.

Apoiado pelo eterno parceiro de copo/amigo de bar e pela bela Mariana, a quem conhece ao longo da investigação (e por quem se apaixona), André vai decifrando aquele universo cheio de malícia e revestido por um grau absurdo de arrogância e abuso de poder. Transitando por entre festas glamourosas da alta roda e centros religiosos como o do espiritualista Santo, peça-chave no entendimento do que aquele mundo doentio representa e o que ele é capaz de fazer com qualquer pessoa que atravesse o seu caminho, o detetive de primeira viagem percebe que sair vivo ao final dessa história já é, por si só, um belíssimo honorário por seus serviços prestados.

Flávio Carneiro atiça o leitor a cada parágrafo com um senso de humor muito bem dosado e que me remete a antigos livros policiais do mestre Marcos Rey, idealizador do programa infantil Vila Sésamo aqui no Brasil e também um virtuose da palavra quando o assunto é história criminal. Mostrando os contrapontos existentes entre a zona sul carioca e certos bairros emblemáticos do subúrbio, a saga de André parece, em muitos aspectos, com aqueles sonhos que todo jovem movido unicamente pela curiosidade já teve algum dia, querendo decifrar algum tipo de mistério. E para compor esse quadro, o autor utiliza-se de ferramentas básicas do gênero: mulheres bonitas, tramóias as mais diversas, megaempresários inescrupulosos envolvidos em algum tipo de falcatrua ou clã misterioso e muitas reviravoltas, para dar liga ao enredo.

Engraçado e sem soar apelativo em momento algum, O Campeonato é a pedida ideal para quem procura uma leitura descontraída e instigante. Diferente de certas "novidades" que andam dando as caras ultimamente nas pratelerias das livrarias!



terça-feira, 2 de novembro de 2010

Opinião crítica: O ridículo venceu (ou notas tardias para o VMB 2010)



Entro na Saraiva Megastore do Norte Shopping pela quinquagésima vez (não dá pra resistir: eu amo livrarias e a capacidade inebriante que elas têm de me conquistar oferecendo tão pouco!) e vejo, entre uma pilha de livros relegados a segundo plano, os chamados saldos - a garotada de hoje só quer saber de Stephenie Meyer e J.K. Rowland - um exemplar curioso: Como a picaretagem conquistou o mundo: equívocos da modernidade, de Francis Wheen. Imediatamente meu desconfiômetro preciso e biológico reage ao que os olhos simplesmente não querem crer que exista nessa seara que é o mercado editorial. "Que livro mais cínico", penso comigo, "típico escritorzinho de meia-tigela que quer ficar famoso a qualquer custo, escrevendo qualquer baboseira". Faz oito meses mais ou menos que essa cena aconteceu e hoje, vencido pelos fatos, confesso aqui nesse blog: o Sr. Wheen é, na verdade, um visionário e quase um profeta! Fomos vencidos pelo ridículo nessa era onde convergência e tecnologia andam de mãos dadas até se você quiser ir ao banheiro.

E o ápice desse meu desabafo tem a ver com a pouco mais de meia hora em que fiquei em frente a TV assistindo ao tão cultuado (hoje as novas gerações podem até chamá-lo de evento obrigatório, que não estarão cometendo nenhuma sandice) VMB ou Video Music Brasil 2010. Dá na mesma, mas o pessoal que é fã e não perde um ano sequer prefere a sigla, tem mais a ver com certos dialetos escritos em redes sociais como Orkut, Facebook, Twitter e outros formatos co-irmãos. Pois bem: falar do VMB é falar do retrato mais bem definido da bizarrice humana na contemporaneidade. Em nenhum outro programa da face da terra você acompanhará uma alcatéia - gosto de comparações com coletivos animalescos - tão grande de inúteis sem conteúdo algum ou simplesmente marqueteiros ridículos profissionais que fazem de tudo (e eu disse de tudo mesmo!) para chamar a sua atenção e, principalmente, conquistar a sua audiência.

Faço uma pausa rápida nesse momento para lembrar do indivíduo internacional mais famoso dessa classe que nasceu nos últimos anos, do homem que praticamente inventou essa profissão do "quero ser famoso a qualquer custo": o ator hollywoodiano Ashton Kutcher. Ele faz misérias - no mau sentido, é claro! - sempre muito bem acompanhado por sua câmera ou celular de última geração. Exibe seu corpanzil sarado pra dar e vender, tira fotos de sua mulher (a outrora exuberante e hoje plastificada Demi Moore) em trajes íntimos ou se despindo, pula na piscina da casa de outros amigos, também celebridades, trajando smoking, em meio a festas badaladas, aparece fumando maconha em lugares públicos, enfim... É o cara que melhor representa essa geração vazia. E o melhor: tudo disponível gratuitamente em seu perfil no Twitter, que lhe rendeu a fama de mais visitado do mundo e que é o verdadeiro Vade-Mécum dos desejos de dez entre dez desajustados de plantão. Por isso, aqui nesse texto ele é referência imprescindível.

Pego o mote desse gênio da idiotice e volto às terras tupiniquins e ao tão fantástico mundo do VMB. Teve de tudo que vocês jamais acreditariam que pudesse existir: Bento Ribeiro, filho do imortal da Academia Brasileira de Letras João Ubaldo Ribeiro, fazendo papel de bêbado e beijando uma mulher gorda na plateia ao saber de sua premiação (lógico que tudo devidamente combinado previamente), Danilo Gantili, repórter do CQC, muito "bem" acompanhado dos lutadores de MMA, verdadeiras enciclopédias de inteligência e humildade do mundo atual, o astro e bad boy do momento, o jogador do Santos Neymar e sua fantástica arrogância e esnobismo afiadíssimo para o evento, cantores os mais inusitados e fora do tom possível, como o pernambucano Otto e o grande vencedor da noite - que eu só fiquei sabendo no dia seguinte ao ler matéria no Jornal do Brasil - a banda Restart, uma mistura de... De quê mesmo? Deixa pra lá. Eu tenho até medo de responder. Sabrina Sato, do Pãnico na TV, que nem lembrava dos indicados da categoria que apresentou, o ícone do You Tube no momento, Felipe Neto, que fez "carreira" falando mal do Fiuk, filho do cantor Fábio Júnior, na internet. "Será que se eu falar mal dele fico famoso também?", me pergunto. Gente. Que festa! E olha que eu acompanhei menos de 40 minutos de espetáculo e já pude conferir todos esses talentos juntos.

Onde fomos parar como seres humanos? Chegamos definitivamente ao fundo do poço? É isso que chamamos de cultura? Ainda dá pra salvarmos nossa sanidade em meio a toda essa megalomania exagerada que invadiu as emissoras de TV, programas de rádio, as ruas, festas, bailes, raves, boates e outros points badalados? Não sei. Essas e muitas outras questões - que deixo logo claro que não são todas apenas minhas, pois alguns colegas tão assoberbados quanto eu quiseram contribuir com suas dúvidas e apreensões também - estão e pelo jeito ainda ficarão muito tempo sem serem respondidas, já que o idiotismo (esqueci de dizer que, de vez em quando, gosto de trabalhar com neologismos também) virou sinônimo ou, se quisermos ir mais além, marca registrada para classificar novos talentos. Talentos esses que eu não vejo, não ouço, não entendo. Só que eu sou um caso à parte. E casos à parte no Brasil normalmente são vistos como pessoas anormais e não viram manchete nos jornais.


Alguns momentos mágicos dessa "festa inesquecível":


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Cineastas: Francis Ford Coppola



Uma das coisas que mais me atrai em cinema é a visão pessoal dos diretores (isso para os que são realmente diretores de cinema e não meros fabricantes de blockbusters, como tenho visto com mais frequência nos últimos anos). E isso Francis Ford Coppola sempre teve, desde sua estreia cinematográfica em 1963 dirigindo o curta Dementia 13, uma obra simples e aterradora, bem ao estilo dos grandes realizadores hollywoodianos que, concomitantemente, viram sucesso na terra das oportunidades. Ele sempre foi o homem dos projetos audaciosos e grandiosos e, mesmo que muitas vezes tenha esbarrado nos limites impostos pelo regime castrador das produtoras, tendo de abortar muitos de seus projetos mais queridos, ainda assim ele imprimiu uma marca única na história do cinema. E não à toa fez de sua obra-prima em duas partes uma lenda na premiação do Oscar.

Francis Ford Coppola nasceu em 7 de abril de 1939. O filho de Carmine Coppola, músico e compositor, não teve vida fácil desde pequeno (aos 9 anos de idade teve poliomielite, o que quase arruinou sua vida e tirou do público o contato com um grande gênio das câmeras). Após uma formação universitária na UCLA, ganhou a vida no começo da carreira escrevendo roteiros e produzindo películas de baixo orçamento, algumas delas de cunho erótico, ao lado do parceiro e também diretor Roger Corman, até seu primeiro contato com a câmera na década de 1960. Porém, seu sucesso consagrador só ocorreria realmente em 1972, quando do lançamento de sua obra-prima O Poderoso Chefão, adaptação para as telas do romance do escritor Mario Puzo, que contava a saga da família Corleone e sua escalada rumo ao poder. Sucesso esse que se repetiria dois anos depois na continuação, que trazia a juventude do patriarca dessa família, Don Vito Corleone. Ambos os filmes foram consagrados com o Oscar de Melhor Filme (Coppola também ganharia o prêmio de melhor diretor e roteiro pela segunda parte da saga e o de roteiro original pelo filme Patton: rebelde ou herói).

À parte o megasucesso da obra-prima gângster, o diretor sairia-se melhor produzindo para outros cineastas, dentre eles alguns velhos parceiros do tempo de faculdade, como foram as produções THX 1138 e American Graffiti (de George Lucas), Kagemusha (de Akira Kurosawa) e A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (de Tim Burton). Contudo, ainda teve fôlego - resguardados alguns problemas de produção, ego dos artistas e falta de apoio de algumas distribuidoras - para realizar o fantástico filme de espionagem A Conversação (com Gene Hackman na pele de um araponga que acaba caindo numa grave crise de consciência) e arrebatar plateias em 1979 com seu majestoso épico de guerra Apocalipse Now, baseado na clássica obra literária de Joseph Conrad, e vencedora da Palma de Ouro em Cannes. Um produção, entretanto, que foi pautada por todos os tipos de excessos, como o enfarte de Martin Sheen durante as filmagens e a decisão de dirigir Marlon Brando em planos fechados e escuros para ocultar sua obesidade mórbida que já dava sinais mais do que evidentes. 

No mais, Coppola oscilou entre retratos da rebeldia e da juventude perdida (como O Selvagem da Motocicleta, Jovens sem Rumo e Peggy Sue: seu passado a espera, onde trabalhou com seu sobrinho Nicolas Cage em início de carreira), a paixão por automóveis (Tucker: um homem e seu sonho), musicais mal sucedidos (o interessante Cotton Club, com majestosa performance do dançarino Gregory Hines, e o até hoje incompreendido Do Fundo do Coração, com Raul Julia e Nastassja Kinski) e uma parceria inusitada com o astro pop Michael Jackson (Capitain EO), até hoje considerada uma das produções mais caras de todos os tempos, feita para um dos parques da Disney. O sucesso de fato só bateria às portas novamente com o clássico de terror Drácula de Bram Stoker, por muitos críticos considerado o seu último filme autoral. Em 2000 ausenta-se do cenário cinematográfico para cultivar em seus vinhedos, hoje sua maior paixão.

Provavelmente os maiores interesses de Coppola na indústria do cinema atualmente sejam a filha prodígio Sofia Coppola, que vem se especializando em dramas humanos - como Encontros e Desencontros e As Virgens Suicidas - e na produtora American Zoetrope onde atualmente está envolvido na produção do filme On the Road, obra máxima da Beat Generation de autoria do escritor Jack Kerouac, a ser dirigido pelo brasileiro Walter Salles. Seus últimos dois filmes (Youth without Youth e Tetro) passaram despercebidos pelo circuito e ele ainda arrisca uma nova produção, voltando ao gênero horror em Twixt now and Sunrise, que contará com Val Kilmer e Elle Fanning no elenco. Para os mais saudosistas pode parecer pouco (e realmente é, se levarmos em consideração a grandiosidade de seus melhores projetos), mas Coppola simplesmente não se incomoda mais com isso. De alguma forma ela sabe que seu tempo áureo já passou e a única coisa que deseja é sombra e vinho fresco. "O resto", sempre dizem os gigantes da sétima arte quando estão praticamente aposentados, "é pura nostalgia".


Trechos de alguns filmes do cineasta:

Apocalipse Now:
O Poderoso Chefão:
Drácula de Bram Stoker:

domingo, 24 de outubro de 2010

Música: "Supernatural", de Santana



Sou fã de Carlos Santana desde que me entendo por gente (ou, mais especificamente, desde que ouvi uma fita cassete - bota tempo! - de sua apresentação no lendário Festival de Woodstock que mudou os rumos da sociedade vigente na época). Algumas pessoas tiveram a honra em vida de ouvir os riffs elétricos de Jimi Hendrix em Purple Haze, outros alucinaram com a simplicidade de David Gilmour, e houve ainda, outros, mais ecléticos, que se deslumbraram com as excentricidades de Jimmy Page, guitarrista do Led Zeppelin, aos primeiros acordes de Dazed and Confused. Eu tive Santana. E lembro exatamente do dia em que subiu ao palco do Maracanã no Rock in Rio 2, em 1991, ao lado do cantor brasileiro Djavan, para executar Oceano. Uma experiência inesquecível e única!

Na última década (refiro-me aos anos 90), depois de CDs encalhados nas prateleiras das lojas e uma carreira em crise, quando muitos a acreditavam mais do que encerrada, o guitarrista decidiu enveredar pelo mundo dos duetos, algo que o tornou alvo de grandes críticas por parte dos fãs mais clássicos que se deliciavam a cada solo de Oye Como Va, Black Magic Woman e Soul Sacrifice. Contudo, verdade seja dita, em seu primeiro trabalho dentro desse formato - o majestoso Supernatural, gravado em 1999 - ele não só se saiu extraordinariamente bem como chamou para o estúdio junto com ele vozes que fizeram do álbum uma quase obra-prima.

Alternando em 14 faixas e pegada latina, o R&B e trazendo como complemento muito bem cuidado solos arrasadores, Santana constrói um acervo de canções que ficaram pra história e são ouvidas frequentemente nas rádios (fator que nem sempre se repetiu em seus álbuns seguintes, apesar de ter permanecido no formato em parceria nos posteriores Shaman e All that I am). Trazendo convidados ilustres como a musa do Hip Hop Lauryn Hill, Rob Thomas, o bluesman Eric Clapton numa dobradinha de guitarras impecável, Eagle Eye Cherry e os grupos Maná e Dave Mathews Band, Santana ferve e exorciza seus demônios particulares em músicas que parecem, em muitos momentos, verdadeiros hinos.

Entre os destaques do álbum vale a pena salientar a faixa de abertura (Da Le) Yaleo com a participação impressionante do percussionista, o hit parade eterno Smooth, Maria Maria (feita em parceria com o Wycleaf Jean, antigo vocalista da banda Fugees e ex-parceiro de Lauryn Hill), Corazón Espinado - que chegou a ter várias regravações, dentre elas uma do cantor sertanejo nacional Leandro - e a sensacional El Farol, que traz à tona um pouco do antigo guitarrista de álbuns passados e faz lembrar (pelo menos para mim) o Santana da época em que gravou o CD Milagro.

Dividido entre o desejo dos mais nostálgicos de que volte a gravar sozinho e a alucinação dos novos fãs, conquistados nos últimos anos, que adoraram a nova faceta do artista, Carlos Santana vai trilhando seu caminho, passando por seus percalços (como qualquer outro sobrevivente do mercado fonográfico), atraindo novas plateias e, principalmente, imprimindo uma nova marca que nada mais é do que uma tendência do mercado. Parece até que somente ele está investindo em parcerias atualmente! Por que quando artistas como Lady Gaga, Beyoncé, Alicia Keys, e tantos outros (só para ficar nos mais conhecidos) investem no formato está tudo bem, mas Santana não pode? "Que me perdoem os fãs", parece dizer o artista em sua nova fase, "mas nem sempre a voz do povo é a voz de Deus".

Alguns hits do álbum: