quarta-feira, 30 de março de 2011

Literatura: "Toxina", de Robin Cook



Eu sempre tive receio desses estabelecimentos que vendem fast food. Acho essa cultura da "comida rápida" um verdadeiro veneno para o organismo de qualquer ser humano. E quando esbarro em matérias jornalísticas que denunciam as práticas degradantes desse mercado de alimentação (já acho alimentação, nesses espaços, um termo um tanto exagerado), aí então minha desconfiança atinge a estratosfera. Em Toxina, romance do escritor e médico Robin Cook vi essa realidade torpe ser multiplicada à décima potência, fazendo com que eu refletisse ainda mais sobre a real importância ou necessidade, como vocês preferirem chamar, desse tipo de opção no cardápio da população.

Na trama, um médico e sua filha vão a uma dessas redes de lanchonetes famosas dos EUA e pedem um especial da casa. A carne, malpassada, à primeira vista não chama a atenção nem perturba nenhum dos dois, que devoram o lanche com gosto. O problema começaria momentos depois quando a menina passa mal e, levada a clínica mais próxima, descobre-se que ela desenvolveu em seu organismo uma bactéria E. Coli de alto nível de mortalidade, fazendo com que o pai entre numa roleta russa diária para encontrar uma cura para a filha.

O que se vê a partir de então é uma verdadeira enciclopédia de excessos, práticas ilegais (de compra de gado doente a falta de higiene nos matadouros dos fornecedores de carne da rede de lanchonetes), abusos de autoridade (há uma horda de empresários inescrupulosos que fará de tudo para impedir o médico e pai e manter viva a sua posição de líder no mercado) e, principalmente, a conivência do próprio hospital onde trabalha, que não quer se ver envolvido na polêmica, ameaçando-o inclusive de demissão.


Toxina é, para os fãs de literatura médica, o que o filme Nação Fast Food, de Richard Linklater, é para os amantes do cinema: um verdadeiro tapa na cara dos consumidores e produtores desse tipo de comida. Através de denúncias muito bem embasadas - certamente provenientes da pesquisa pessoal de Cook  na área - num discurso literário envolvente, o autor consegue (como fez brilhantemente em vários momentos de sua carreira como ficcionista, a destacar obras como Vírus e Coma) deixar seu alerta às autoridades competentes e ao público, que precisa ficar mais atento com o que come hoje em dia.


Prova viva e irrefutável disso são os índices astronômicos envolvendo casos de obesidade ao redor do mundo desde a criação e consequente popularização desse tipo de estabelecimento (e cuja tendência é piorar, se assim o permitirmos).

quinta-feira, 24 de março de 2011

In Memoriam: Elizabeth Taylor (1932 - 2011)



Deixou-nos a diva dos olhos de violeta, a eterna Cleópatra que tanto encantou Marco Antônio (vivido pelo ator Richard Burton) a ponto de desposá-la por duas vezes. Uma vida de escândalos, atuações marcantes, casamentos frustrados (foram oito durante toda a vida), sorrisos inesquecíveis e uma silhueta de fazer inveja a muitas das sex symbols do cinema mundial que invadem as páginas das mais importantes revistas ao redor do mundo. Ela era polêmica, um verdadeiro vulcão em erupção e, muitas vezes, bastava um simples olhar matreiro para a câmera para que o espectador tivesse a clara sensação de estar diante do paraíso. E acreditem: quem nunca viu um filme dessa mulher, não sabe a falta que ela vai fazer (já está fazendo, há pelo menos três décadas) na indústria cinematográfica norte-americana.

Elizabeth Rosemund Taylor - ou simplesmente Liz Taylor - é, na opinião desse humilde e sarcástico blogueiro e agitador virtual, o maior símbolo sexual até hoje visto na história do cinema. Que me perdoem os que fazem questão de entregar o posto a Marylin Monroe ou Audrey Hepburn quando o assunto é o lugar de honra nesse pódio de beldades do cinema (e nada contra a beleza esfuziante de ambas!), mas Elizabeth foi até hoje a única diva do star system americano a conseguir me fazer acreditar que a beleza, em certas ocasiões, deve ser fundamental, como já apregoou no passado o poeta carioca Vinicius de Moraes.

Da sedutora prostituta Gloria Wandrous em Disque Butterfield 8 (e a imagem escolhida pela equipe que diagramou a capa do Segundo caderno do Jornal O Globo de hoje já fala por si só) a depressiva Martha de Quem tem medo de Virginia Woolf?, ambas interpretações vencedoras do Oscar, Elizabeth Taylor nos presenteou e, mais do que isso, nos hipnotizou com uma verve poucas vezes vista em Hollywood. Ela era capaz de encantar qualquer plateia - principalmente a masculina - sem emitir um único ruído, sem pronunciar um diálogo sequer.

A um passo da eternidade, O pecado de todos nós, A megera domada, até mesmo num personagem simples como o da sogra de Fred Flintstone (interpretado pelo ator John Goodman) na adaptação para o cinema do eterno desenho animado pré-histórico, servem como referências de uma artista que, diferentemente de algumas exigências do mainstream cinematográfico atual, não precisava ser camaleônica para conquistar o seu público, sempre assoberbado com sua beleza ou encorajado por seu engajamento em lutas as mais diversas (como a do combate à AIDS, por exemplo). Ele só precisava mesmo ser Liz Taylor para brilhar. E nada mais. Seus eternos amigos, Rock Hudson e Montgomery Clift, perceberam isso. As salas de cinema abarrotadas perceberam isso. Esse que vos fala também se rendeu a esse encanto. Encanto que, infelizmente, a partir de agora, não estará mais disponível. Resta-nos seu legado, sua obra. Vá com Deus, eterna diva!

Trailer de Disque Butterfield 8:
http://www.youtube.com/watch?v=zPfseQxUB7c

Trailer de Cleópatra:
http://www.youtube.com/watch?v=NGDyZHlHklo

Cena de Quem tem medo de Virginia Woolf?:
http://www.youtube.com/watch?v=nInE5TITzE8

quinta-feira, 17 de março de 2011

Música: "Rádio Pirata ao vivo", de RPM



A notícia - feliz, é bom que se enalteça! - de que bandas de rock que embalaram a trilha sonora da minha adolescência nos anos 1980 voltariam a estúdio para gravar álbuns inéditos caiu como uma luva para preencher a minha necessidade de retomar contato com os roqueiros tupiniquins. Nunca foi tão chato ouvir rock n' roll nacional, numa época em que imperam bandas de gosto duvidoso como Restart e NXzero. O meu deslumbramento foi tamanho com a nota divulgada no Jornal O Globo que impossível seria não relembrar do fatídico ano de 1986 e da revolução proporcionada aos fãs do gênero pelo grupo RPM. Que me perdoem os que não eram nascidos na época, mas quem não curtiu a adrenalina apresentada ao país por Paulo Ricardo, Luiz Schiavon, Fernando Deluqui e Paulo P.A Pagni, simplesmente precisa se inteirar mais sobre o verbete rock.

Rádio Pirata ao vivo, segundo álbum da banda, gravado ao vivo no Complexo do Anhembi, em São Paulo, e com direção do cantor Ney Matogrosso, é - gostem ou não os críticos, que adoram dividir opiniões - o divisor de águas dessa metamorfose em que o ritmo se transformou. Seja pela celebridade que seu vocalista  viria a se tornar após o lançamento do álbum (e, com isso, muitos na época chegaram a cogitar que Paulo Ricardo não fosse realmente um artista, mas um mero sex symbol que seria tragado, com o tempo, pela fama), seja pelas letras fortes, ácidas, divertidas, a cara de uma geração que procurava os seus valores em um país que parecia confuso, perdido à primeira vista, Rádio Pirata foi uma alienação (mais: um revitalização) para um rock brasileiro que já bombava, com nomes como Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, entre outros. Nenhum outro disco vendeu tanto quanto ele no período (e falo de mais de 2,5 milhões de cópias vendidas em território nacional).

Como destacar minhas preferências num trabalho tão bem realizado e de repertório tão apaixonante quanto esse? Apesar de se tratarem de apenas nove faixas, o brilhantismo com que o show foi realizado é digno de nota e, dificilmente, os apreciadores do estilo ficarão desapontados com o resultado final. Indo da belíssima instrumental Naja a internacional London, London, clássico de Caetano Veloso dos tempos de exílio na capital inglesa, e passando pelos hits - imprescindíveis em qualquer turnê do grupo - Olhar 43, Alvorada Voraz e A Cruz e a Espada, o álbum reúne, em poucas palavras, o melhor desse período musical de quem esse blogueiro que vos fala guarda tantas boas recordações.

Aos acordes finais do show gravado (que ouço novamente pela centésima vez) e passadas mais de duas décadas da revolução proposta, a impressão que fica é a de que o rock regrediu - e muito. Onde foram parar aqueles herois da resistência que com uma simples guitarra e arranjos de fácil execução um dia tentaram mudar o mundo? Onde foi parar a Geração Coca-Cola que o Renato Russo tão bem cantou? Hoje, ao contrário, o que se vê é uma comercialização desenfreada da música (seja online ou nas raras lojas que ainda sobrevivem bravamente), onde criação artística e significado deram lugar a cifras astronômicas e artistas de segunda com patrimônios milionários. E este pobre coitado, escritor da internet e do Jukebox, sonha - pois sonhar ainda é gratuito - que, com o retorno desses titãs do gênero ao cenário musical de onde nunca deveriam ter se ausentado, novos ventos tragam ritmos agradáveis e ideais antigos à baila. Nossos ouvidos (acredito falar por muita gente) agradecem!


Clipe oficial do show:

London, London ao vivo:


       

sexta-feira, 11 de março de 2011

Lendas: Charles Chaplin (1889 - 1977)



Ele simplesmente parou o mundo sem proferir, na tela, uma única palavra. Charles Spencer Chaplin, o menino prodígio de Londres, fruto de um lar em frangalhos (os pais se divorciaram quando ele tinha apenas três anos de idade, motivado ora pelas crises emocionais da mãe ora pelo alcoolismo desenfreado do pai), viu sua vida mudar aos cinco anos, quando subiu ao palco pela primeira vez para cantar Jack Jones. Com a internação da mãe no asilo Cane Hill, o garoto é mandado - pela amante do pai - para a Archbishop Temples Boys School. Após seu internato por lá veio a admiração pelo music hall onde, junto com o irmão, iniciou uma carreira lendária no show business.

Sua primeira turnê se dá na trupe de Fred Karno na década de 1910 onde, entre seus intergrantes, constava o comediante Stan Laurel, da futura dupla cômica O Gordo e o Magro. Foi da atuação nesse companhia que surgiu o convite de Mack Sennett para que ele ingressasse na Keystone Film Company (onde estreia no cinema com Making a living). Na Keystone, Chaplin criou o que se tornaria um dos maiores personagens da história do cinema mundial: o vagabundo Carlitos, um andarilho pobretão das ruas que, no entanto, possui todos os requintes e elegâncias de um membro da elite inglesa. Abriam-se ali as portas para um pioneiro do que as artes cinematográficas se tornariam. 

Falar de sua filmografia seria assunto para muitas teses de doutorado ou livros comerciais, tendo em vista que Chaplin retratou, em suas películas, o melhor e o pior da Inglaterra e, em justa medida, do continente europeu. Entre suas inúmeras produções bem sucedidas - Luzes da Ribalta, O Circo, Tempos Modernos, Luzes da Cidade, O Garoto, Em busca do ouro perdido, Monsieur Verdux, O Grande ditador, fora os curtametragens antológicos do início da carreira - percebe-se a preocupação do ator, produtor, diretor, roteirista e compositor (sim, pois muitas das canções que se ouvem em seus filmes são de sua própria autoria!) de denunciar as mazelas e arbitrariedades dos poderosos, o que acabou levando a um interesse ferrenho do artista em montar sua própria produtora e manter, com isso,  o controle criativo de seus trabalhos. Algo que seria alcançado com a criação da United Artists, junto com Douglas Fairbanks e outros atores da época).

Em 1992 o diretor Richard Attenborough dirigiu Chaplin, uma cinebiografia interessantíssima sobre o mestre do cinema mudo, tendo como protagonista o genial Robert Downey Jr. numa recriação de época exuberante. Uma película que eu recomendo em gênero, número e grau para aqueles que desejam entender um pouco da mente irascível e fascinante do eterno Carlitos. Outra fonte de informações excelente é a autobiografia do próprio Chaplin, Minha Vida, trazendo relatos fortes de sua carreira e de sua vida pessoal, dentre eles a derrota nos tribunais por um caso de paternidade não-confirmada, em que o ator não pôde usar o exame de DNA como prova para se defender. 

Chaplin foi pop, reacionário, brilhante, brigão, contestador, gostava de ter a última palavra  em tudo que trabalhava (sua discussão com Marlon Brando nos sets do filme A Condessa de Hong Kong já se tornaram parte da mística contraditória que envolve a sua genialidade) e, muito por conta disso, construiu muitas inimizades dentro da indústria cinematográfica. Porém, por mais que seus detratores queiram negar, o que seria do cinema como obra de arte não fosse o toque magistral e a inquietude desse dínamo da câmera e da arte de atuar? Gostem ou não, cinema sempre será classificado em antes e depois de Charlie Chaplin.   

Trailer do filme Chaplin, de Richard Attenborough:

Cena de O Circo:

Cena de Tempos Modernos:

Frases, textos, pensamentos e poemas que traduzem a mente de Chaplin:


 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Homenagem: Selo "Dardos de Qualidade"



Enquanto procurava um tema para o próximo post do Jukebox, fui agraciado pelo blogueiro Matheus Ferraz, do blog Fräuleins sem Uniforme (http://frauleinsuniforme.blogspot.com/) com o belíssimo selo acima, o Dardos de Qualidade. Uma honraria que me deixou tão feliz - o que prova por a + b que aquilo que eu escrevo aqui possui credibilidade - que decidi fazer da ocasião um post próprio. 

Conforme as regras da premiação, devo indicar quatro blogs amigos (dentre a infinidade dos que visito) para também receber o selo. Tarefa das mais difíceis, tendo em vista a quantidade de blogs que eu visto semanalmente, até como fontes de referência (muitos não sabem, mas já saí de várias visitas a outros blogs com ideias brilhantes, verdadeiros achados históricos, que viraram grandes temas aqui no Jukebox).

Após exaustiva escolha - é impossível realizá-la sem ser injusto com alguém - elejo, entre mais de 150 blogs visitados, os citados abaixo:

1) Cine Cápsulas, de Gustavo H. Razera

2) Cinéfila por Natureza, da Kamila:

3) Cultura Intratecal:

4) Dementia 13, de Ronald Perrone:

Todos os autores listados acima serão devidamente notificados de sua premiação conforme o regulamento do prêmio. Sem mais a declarar, deixo aqui registrado o meu mais entusiasmado agradecimento. E longa vida a esse blog!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Memória: Spectreman



1986/1987. Eu tinha por volta de meus 10, 11 anos e toda vez que chegava da escola nessa época o ritual era sempre o mesmo: largar a mochila em cima da cadeira, ligar a TV no programa do Bozo e esperar a voz do narrador apresentando a música-tema do episódio seguida da seguinte abertura: "Planeta: terra. Cidade: Tóquio. Como em todas as metrópoles deste planeta, Tóquio se acha hoje em desvantagem em sua luta contra o maior inimigo do homem: a poluição. E apesar dos esforços das autoridades de todo o mundo, pode chegar um dia em que a terra, o ar e a águas venham a ser tornar letais para toda e qualquer forma de vida. Quem poderá intervir? Spectremannn!". Começava ali mais um capítulo da série que marcou a minha infância. E as saudades que esse tempo me trazem, ah! são lúdicas.

Spectreman, criação de Tomio Sagisu, estava a anos luz de tudo o que vemos hoje em dia em termos de produções envolvendo efeitos especiais. A história do cientista símio Dr. Gori que, acompanhado de seu fiel escudeiro Karas, criava a partir de detritos provenientes da poluição japonesa as mais bizarras criaturas, até o aparecimento do herói dos raios espectrais (daí o nome do personagem), sempre a postos para executar as ordens dos dominantes, era das mais primárias. Cenários então? isopor em sua quase totalidade, maquetes que pareciam produzidas por estudantes do ensino fundamental, fora as criaturas nefandas, que misturavam espuma, camurça, couro e outros materiais baratos. Porém, a capacidade de atrair espectadores que o seriado gerou na segunda metade da década de 80, com as reprises exibidas na antiga TVS, hoje SBT (originalmente a produção fora exibida na Rede Record nos anos 70, sem obter o mesmo sucesso) era gigantesca. Quantas e quantas vezes o assunto da conversa na escola ou na rua não era sobre o episódio do dia anterior.

É inegável a influência da produção cinematográfica hollywoodiana O Planeta dos Macacos, de Franklin J. Schaffner na série, bem como é impossível não destacar a dublagem, que tinha seus toques de comicidade propositais (afinal de contas, tratava-se da mesma equipe dos Estúdios Maga, responsável por dublar os programas Chaves e Chapolin, além do desenho animado Snoopy, também parte da grade da emissora paulista na época). Para infelicidade dos fãs que curtiram esse período, Spectreman durou módicos 63 episódios, que na verdade seriam pouco mais de 30, já que cada episódio era sempre dividido em duas partes. Uma pena para aqueles que, como eu, ainda moleque, viam naquele tipo de produção o máximo em termos de audiovisual e criatividade. Se até hoje sou fã de filmes trash, devo isso ao herói japonês e sua turma.

Gostem ou não os críticos mais exaltados, a grande verdade é que esse super-herói nipônico conquistou uma legião e tanto de fãs e foi - não resta a menor dúvida - o pontapé para que muitas emissoras nacionais (cabe aqui um destaque para a Rede Manchete no final dos anos 80 e início dos 90) enveredassem pelo gênero Tokusatsu como fênomeno de audiência. Outras franquias como Ultraman, Jaspion, Changeman, Jiban, Jiraya, até o mais recente Power Rangers, acabaram meio que se tornando desdobramentos dessa mentalidade televisiva que viu nessas produções baratas, mas que foram se aprimorando ao longo dos anos, um forte potencial de mercado com público certo. Se hoje fala-se muito - e às vezes desnecessariamente - em 3D, Imax, CGI, Rotoscopia e outras tecnologias de captação de imagem relacionadas ao mercado audiovisual, confesso que dificilmente uma outra técnica ou módulo de exibição conseguirá me impactar tanto quanto a originalidade desses produtores japoneses. A indústria de cinema deveria reaprender a pensar a sétima arte e seus métodos de produção dessa forma!


Abertura da série:


 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Quadrinhos: "Mesmo Delivery", de Rafael Grampá



Dois caminhoneiros, uma estrada, uma carga indecifrável a quem os entregadores sequer podem ver, um trabalho perigoso. A reunião desses poucos elementos já é o suficiente para termos uma história com requintes de crueldade e morbidez. Sem contar o clima dark proposto pelas aves negras sobrevoando as páginas da revista no começo e no fim da história. Rafael Grampá, o quadrinista responsável por esse ácido e forte Mesmo Delivery, é isso: sarcástico, contundente, afiado como uma lâmina. E não tem a menor vergonha de se apropriar de tendências e estilos que vem se consagrando nos últimos anos em várias vertentes artísticas.

Em sua incursão por esse universo roadie ele agrega desde as obsessões tarantinescas até um clímax que lembra, em parte, os contos sobrenaturais do mestre do policial Edgar Allan Poe. E para que não venham me acusar de ter deixado de fora a música, é fácil perceber a influência de canções que vão de Peral Jam a Nirvana, passando por Creedence Clearwater Revival, quando folheamos cautelosamente - essa é uma palavra que precisa ser administrada com cuidado durante toda a leitura - página a página desse espetáculo visual. Seus traços brutos (tanto quanto os músculos de um dos caminhoneiros envolvidos na trama) que nem por isso perdem o rigor e a excelência quando unidos, compõem um conjunto muito bem tecido de cores e linguagem, deixando o leitor sem ar e, ao final da história, desejando mais e mais.

Grampá segue uma linha que tem se tornado referência no quadrinho nacional, principalmente depois da ascensao internacional de nomes como Gabriel Bá e Fábio Moon, que vêm arrebatando prêmios de renome no exterior. E esse estilo tem uma explicação muito fácil de ser definida pelos leitores: eles não tem vergonha de arriscar. Digo isso porque sempre percebi nos quadrinhos brasileiros uma vontade incômoda de parecer tradicionais em excesso (salvo, é claro, exceções lendárias como Henfil Angeli e outras feras de longa data). Já nessa nova geração de autores, ao contrário, não há limites no que concerne a reponder a pergunta: "O que esperar quando se lê um trabalho desses jovens geniais?". E esse é exatamente o grande mérito dessa obra gráfica. É inventiva e faz com que o leitor queira sempre um pouco mais no quadrinho seguinte.

Terminada essa experiência - pois trata-se de mais do que uma simples leitura -, chego a conclusão, como chegarão aqueles que ousarem enfrentar esse desafiador trabalho, de que mais do que mostrar um universo até então desconhecido para os leitores tupiniquins, Mesmo Delivery reinventa a arte gráfica nacional num patamar nunca antes visto na história da nona arte (pelo menos, a parte da história que nos interessa). Diálogos fortes, duros, sem pudor, batalhas sangrentas por motivos torpes ou medíocres, frases de duplo sentido, rixas, apostas e um sentimento misto de niilismo e redenção bem ao gosto do autor (procurem seus outros álbuns. Vale a pena!), que vem se transformando numa das mentes mais criativas - e corajosas - dos últimos anos. E isso por si só já vale uma conferida em sua criação. 


Matéria publicada na Universo HQ sobre Mesmo Delivery:
    
Preview da HQ: